Jornal de Campinas

 

-- ENTREVISTA -------------------------------

Reynaldo Boury, o caçador de talentos

Boury elogia a participação campineira: "Pessoas que nunca tinham encarado uma câmera em teledramaturgia se saíram muito bem e num ritmo muito ágil"

Reynaldo Boury tem 68 anos de idade e mais da metade desses anos todos dedicados à teledramaturgia. Realizou grandes produções para a Rede Globo, dentre novelas e seriados. E tem um prazer especial em citar Tieta como o trabalho que lhe deu mais satisfação em fazer. Foram inúmeros sucessos de crítica e audiência, desde os tempos da extinta TV Excelsior como Redenção e Sangue do Meu Sangue, depois na Rede Globo com Sinhá Moça, Irmãos Coragem, Selva de Pedra, Despedida de Solteiro e Tieta, além da série Caso Verdade e da minissérie Riacho Doce.

E todo esse know how de produção e direção para TV, Boury está dividindo gratuitamente com interessados em protagonizar o processo tanto atrás, como na frente das câmeras. Ele, sua mulher Itacy e sua filha Margareth, além do cinegrafista Marcos Galvão e do produtor José Quintino (Você Decide) - juntamente com o Teatro Escola Sia Santa - estiveram em Campinas durante todo o mês de junho até meados de julho orientando a escrita, produção e direção, com 186 pessoas, de um programa de teleteatro chamado O Casal ao Lado.

O programa faz parte do Talento Regional EPTV, uma extensão do Projeto Afiliadas da Rede Globo, e tem o objetivo de descobrir artistas regionais para a teledramaturgia. O projeto, lançado em maio último, recebeu 2250 inscrições para as oficinas gratuitas de roteiro, direção, interpretação, produção e direção de fotografia. Com direção geral de Boury, as gravações foram feitas com locações em Campinas e região.

O Casal ao Lado tem 45 minutos de duração e será exibido pela EPTV. Esse é o primeiro teleteatro regional escrito, interpretado e produzido por pessoas da região, sob a chancela da EPTV/Rede Globo e Teatro Escola Sia Santa. O teleteatro editado será entregue no dia 28 de julho para a emissora, que ainda irá definir a data de exibição. A seguir, a entrevista exclusiva de Reynaldo Boury ao Correio Popular.

Correio: Você poderia fazer um balanço do trabalho realizado aqui em Campinas?

Reynaldo Boury: Até agora já foi feita a produção e a gravação do programa. Eu estou na fase de edição. Comecei a editar o programa hoje. O que aconteceu até agora foi da melhor categoria, todos muito imbuídos dentro de cada função, de cada oficina. Cada um foi designado a uma função desde continuísta, assistente de direção, assistente de produção, direção, figurino, maquiador... Eu tô falando essas mas tem muitas outras funções dentro de um programa de teledramaturgia. Todo saíram das oficinas e todos desempenharam a contento na ora da gravação. Nos dias de gravação todos foram absolutamente maravilhosos.

Se comprometeram e cumpriram.

Se comprometeram e cumpriram com uma garra muito grande, com uma vontade muito grande de aprender para continuar fazendo. Pessoas que nunca tinham se conhecido, pessoas que não se falavam por motivos óbvios, porque não se conheciam. Acabaram todos numa confraternização muito grande. Teve muita choradeira quando acabaram as gravações, as pessoas queriam mais. O ambiente foi o melhor possível.

Você acredita que todo esse trabalho e envolvimento possa impulsionar em Campinas a criação de um núcleo de teledramaturgia?

Eu acho que tem que ser criado. Porque o talento tá aflorado, todo mundo quer participar, fazer, colaborar, não existe ninguém que tenha má vontade, todos estão com uma grande vontade de fazer. Eu acho que o caminho está aberto, a pedra fundamental está lançada. Agora é só tocar isso, porque é uma coisa que vai dar certo, com certeza.

Você está passando rapidamente pelas cidades. Como foi a experiência na Bahia e em Manaus?

Já passei especificamente em Salvador e depois em Manaus com esse projeto que a Rede Globo lançou no Brasil no final do ano passado. Na Bahia eu fiz dois programas de teledramaturgia.

Que também envolveram tantas áreas como o realizado em Campinas?

O processo é o mesmo. A teledramaturgia é uma arte muito pouco explorada e difundia fora do eixo Rio-São Paulo. Você vê que as emissoras afiliadas, regionais, têm uma programação jornalística muito boa, tem ótimos documentários, tem programas esportivos, mas dramaturgia não tem, ninguém pensa, ninguém faz. E não sabem fazer porque não têm a malícia, malícia entre aspas, que é o jeito de fazer. Então, estamos passando isso em grupo para que as pessoas saibam fazer e possam desenvolver o talento. Na Bahia já estamos no terceiro programa, em Manaus eles estão se preparando para o segundo, e aqui estamos finalizando o primeiro. Daqui eu devo ir para Porto Alegre e depois para São Luiz do Maranhão. Eu já tenho algumas emissoras agendadas para que eu possa realizar o trabalho.

Você se surpreendeu com o volume de inscrições para as oficinas aqui em Campinas?

Muito, muito. Nós tivemos uma reunião aqui na EPTV onde ficou estimado que teríamos cerca de 600 inscrições. Mas foram 2.500. Isso superou e muito a expectativa da empresa. Para selecionar esse pessoal todo nós estudamos o currículo de cada inscrito. Os atores, que foram 1320, nós fizemos um teste com cada um. Todos os atores fizeram testes de áudio e vídeo.

Quais são as diferenças básicas entre um teleteatro e uma telenovela?

A novela é uma história a longo prazo, ao passo que esse especial de 45 minutos que a gente tá fazendo é uma história que tem princípio, meio e fim num mesmo dia. A novela é diária.

Mas em termos do trabalho do ator? Da interpretação? Há diferença de um teleteatro para uma telenovela?

Não. A postura de um ator na televisão tanto faz em uma novela ou teleteatro. A postura é a mesma. Tem que saber lidar com a câmera. O ator de teatro é viciado em lidar com a platéia. Então ele tem que fazer uma expressão facial ou um gesto para que a pessoa que está lá na vigésima fila acredite que são compatíveis com a cena que ele tá representando. Na televisão você não precisa disso. Você tem a lente que dá um close e um microfone a dois palmos de você que vai captar o seu suspiro, a sua respiração.

Os gestos são mais contidos.

Muito mais contidos. Muitas vezes você vai fazer um gesto e você tá em close, então não adianta fazer aquele gesto que não está sendo filmado. O bom ator sabe adaptar o seu talento para qualquer veículo, seja, teatro, cinema ou TV. E o diretor tem que saber aproveitar o talento do ator para o seu veículo.

Foi o que aconteceu aqui?

Foi. Pessoas que nunca tinham encarado uma câmera em teledramaturgia se saíram muito bem e num ritmo muito ágil. Eu não posso perder muito tempo em uma praça porque os custos ficam muito altos, então, por causa da operacionalidade, da realidade orçamentária do programa, temos que ser muito ágeis e práticos. Não é um especial onde caem aviões, onde os trens se descarrilham, os shoppings explodem. Nós temos que valorizar a interpretação, e não a ação.

Vocês definiram um público alvo pra escrever o roteiro do programa?

Não fizemos isso. Esse é um programa que vai movimentar todas as classes da região. Todos vão querer ver um programa feito na região, o adolescente, o adulto, a meia-idade e a terceira idade. E nós temos adolescente, meia-idade e terceira idade no programa. Temos os três segmentos. Queremos que a região de Campinas se interesse em ver um produto feito aqui.

Falando mais da sua trajetória, qual foi o trabalho que lhe proporcionou mais prazer em dirigir, dentre novelas, séries e teleteatros?

Ah, foi Tieta. O elenco estava muito afiado e afinado, a história era muito boa, teve uma aceitação de público muito boa, era muito gostoso fazer essa novela. O meu melhor trabalho foi Tieta, depois Sinhá Moça também me deu uma enorme satisfação em fazer. Outras novelas foram Irmãos Coragem, Despedia de Solteiro e a minissérie Riacho Doce. Esses foram os trabalhos mais marcantes da minha carreira.

Existe ainda algum texto ou obra que você gostaria de levar para a televisão?

Não tenho essa vontade de escolher um texto.

Eles vêm até você?

Exatamente. A Tieta que eu fiz veio casualmente também. Foi uma novela que me chamaram para fazer e acabei fazendo. Eu prefiro que as coisas venham até mim.

(Carlota Cafieiro, do Correio Popular)

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