Jornal de Brasília - 24 de janeiro de 2001

Equipe de Estrela Guia filma na cidade

 

Fernando Brasil e Erika Klingl

Troca de sopapos, perseguições de carros e encrencas com a polícia são cenas comuns em filmes de ação, mas não será difícil para os fãs do gênero assistirem, em breve, momentos de alta tensão em pleno horário nobre das 18h da Rede Globo. As primeiras cenas da novela Estrela Guia , prevista para estrear no dia 12 de março, já começaram a ser rodadas em Brasília, onde vive Carlos Charles, o playboy  arruaceiro vivido pelo ator Rodrigo Santoro.

A primeira confusão aprontada pelo garotão terá como cenário o tradicional Beirute, bar da 109 Sul frequentado por músicos, poetas, jornalistas e descolados da cidade há mais de 30 anos. As sequências, rodadas ontem, vão ao ar no segundo capítulo da novela.  Na cena, Charles provoca uma briga depois de paquerar uma garota acompanhada do namorado, que resolve tirar satisfações. “Ele é um garoto rico e mimado e, por isso, inconseqüente. Mas não acho que ele tenha uma índole ruim”, define o ator Rodrigo Santoro.

Além da briga no bar, estão programadas cenas de perseguição de carros, numa delegacia e outra na rua, onde Charles e seus amigos resolvem assustar um grupo de mendigos, utilizando paint balls , um tipo de revólver que explode tinta ao atingir o alvo. Segundo a produção da novela, as locações ainda não estão definidas.

“Estamos encontrando alguma dificuldade para filmar à noite porque as ruas de Brasília são muito escuras”, diz a diretora de Núcleo da novela, Denise Saraceni. Ela diz que a equipe ainda está estudando a possibilidade de filmar na Esplanada dos Ministérios, onde há maior luminosidade. A equipe de filmagem permanece na cidade até sexta-feira, quando parte para Anápolis e Pirenópolis para rodar as próximas cenas.

A peneira da Luciana

A responsável pela seleção do elenco local para a novela é a diretora e atriz Luciana Martuchelli. Não é a primeira vez que ela trabalha para a Globo, tendo participado, desde 1987, das produções de Araponga, Rei do Gado e A Justiceira. “Meu último trabalho foi para Os Maias. Frida, diretora de elenco de Estrela Guia, me ligou pedindo para que selecionasse crianças com sete anos e homens de 20 a 25 anos para pequenas participações e pontas na novela”, afirma Luciana. 

Em três dias de seleção, ela entrevistou cerca de cem crianças e 80 atores e modelos. Desse total, foram selecionados os atores da gangue de Rodrigo Santoro, os seguranças do Bar Beirute (que servirá de locação), os mendigos que serão atacados pela turma, e o delegado. “É sempre muito bom quando podemos colocar o elenco do local na trama, fica mais natural e com um olhar mais verdadeiro do ambiente e dos moradores da cidade.” 

Luciana acredita que a abertura da produção de elenco da Globo para atores de fora do eixo Rio e São Paulo é muito positiva para a reciclagem da teledramaturgia e introdução de novos pólos de criação e produção, além do reconhecimento de valores locais. A participação dela nesse processo é muito significativa, já que ela ministra cursos de formação de atores para televisão há vários anos. “No ano passado, foram oito cursos, juntamente com o diretor Reynaldo Boury, (dirigiu Tieta, Riacho Doce e Irmãos Coragem ). Sempre falo para os meus alunos sobre a importância de se preparar. O conteúdo somado à técnica é uma loteria ambulante”, diz. 

Vários alunos de Luciana foram selecionados pela Globo. Entre eles Guilherme Veloso, que fará parte da gangue de Santoro em Brasília, e Gustavo D´ávila, um amigo dele que mora em Pirenópolis. Guilherme Veloso começou a carreira em cursos no Estados Unidos. De volta ao Brasil, estudou com Luciana, Douro Moura, Reynaldo Boury e outros. Esta é a segunda participação em novelas da Globo. A primeira foi uma figuração em A Justiceira. “Hoje, estou muito mais pé no chão. Quando fiz A Justiceira, esperava Deus e o mundo com a minha participação,” afirma Guilherme. “Agora estou mais maduro. Além disso, o papel é muito melhor, com aparição em mais cenas e falas.” 

Gustavo D´ávila atribui a Luciana sua entrada na teledramaturgia. “Fiz vários cursos com ela.” Ele vai viver Vandinho, amigo de Santoro que mora em Pirenópolis, no momento da trama em que ele conhece Sandy. Gustavo já fez vários comerciais, vídeos institucionais e participou de programas da MTV em 2000, mas  é a primeira vez que atua para a Globo. Ele não esconde a satisfação de aparecer em cinco capítulos e a expectativa em conseguir resultados concretos. “Vou fazer o que estiver ao meu alcance para que o personagem cresça ou para que eu possa ser convidado para outros trabalhos”, afirma Gustavo. (FB/EK)

Direção e atores negam estereótipo de violência

O ator Rodrigo Santoro já esteve em Brasília diversas vezes. Foi na cidade que Santoro deu um passo fundamental na consolidação da carreira no cinema, quando ganhou, no último Festival de Cinema de Brasília, o prêmio de melhor ator pelo filme Bicho de Sete Cabeças . De volta à cidade para participar das gravações da próxima novela das seis da Globo, Estrela Guia , o ator discorda veementemente da afirmação de que seu personagem na novela, o playboy  violento Carlos Charles, seja um reflexo dos jovens que moram na Capital Federal.

“A violência dele (Carlos Charles) não é apenas a violência de Brasília ou do Brasil, mas do mundo”, diz Santoro. O ator afirma que não conhece histórias de violência envolvendo os jovens da cidade. “Ouvi a história do índio queimado (o pataxó Galdino dos Santos foi assassinado na cidade em abril 1997), mas também há os skinheads  em São Paulo e os pitboy s no Rio”, avalia ele.

A diretora de núcleo da novela, Denise Saraceni, concorda com o ator, afirmando que a novela propõe uma reflexão sobre a juventude do País. Segundo a diretora, o fato de Brasília estar na trama da novela deve-se mais à localização geográfica  (Pirenópolis, cidade-chave da trama, onde vive a personagem de Sandy, Cristal, fica a menos de 150 km da Capital) do que à cidade em si. “Não há objetivo em regionalizar a discussão sobre a violência, trata-se na verdade de um painel urbano em contraste com a realidade rural da comunidade”, argumenta.

Rodrigo Santoro considera ainda os jovens da cidade grandes expoentes do cinema e da música nacional. “Para dizer a verdade, não existe no Brasil uma juventude voltada para a produção cultural como a que existe aqui”, acrescenta. “Fiquei impressionado com a produção local, acho que o René (Sampaio, diretor do curta-metragem Sinistro , premiado no último Festival de Brasília) ganhou os prêmios merecidamente”, elogia. (FB/EK)

Novela prevê ataque a mendigos

Uma das primeiras seqüências de Estrela Guia  gravadas em Brasília é a de um ataque da turma de Rodrigo Santoro a dois mendigos nas ruas da cidade. A cena repete uma realidade gritante em várias cidades brasileiras. Mas passagens assim remetem sempre à  morte do índio Galdino no ponto de ônibus da quadra 703/704 Sul, ocorrida em abril de 1997. À época, um grupo de rapazes colocou fogo no índio sob alegação de achar que era apenas um mendigo. 

Preocupado com a acentuação de um aspecto negativo da cidade, o ator Murilo Grossi conversou com a diretora do elenco, Frida, sobre o repercussão da cena na construção da imagem de Brasília. Na trama, Murilo fará um delegado de polícia, com marcas de justiceiro, que cuidará do caso dos mendigos atacados. “Não que eu seja bairrista, o caso do índio aconteceu e não se pode negar, mas isso deve ser trabalhado com muito cuidado”, afirma Murilo. “Conversei com Frida sobre o enfoque dado e vi que a autora e o diretor vão tratar de um fenômeno da juventude de todo o Brasil e não especificamente daqui. Não tenho muitos detalhes da cena, mas pude ver que não há preconceitos contra Brasília”, completa o ator.  

Outro ator veterano da cidade que atuará na novela é Gê Martú. Ele viverá o dono de um cartório em Pirenópolis. Segundo ele, a cena que aparentemente reforçaria a imagem negativa da cidade, levantando aspectos de impunidade, nos chama para uma discussão mais séria sobre as necessidades de mudança. “Estamos cansados de impunidade, os Lalaus  da vida têm todos os privilégios, e nós só assistimos a impunidade. Tenho certeza que a Rede Globo quer gerar discussões positivas sobre esse assunto que atinge todo o Brasil.” (FB/EK)