Correio Braziliense - 28 de janeiro de 2001

Novela no Planalto

Premiado como melhor ator no último Festival de Brasília, Rodrigo Santoro volta à cidade para gravar cenas da próxima novela das seis da Globo, Estrela Guia
Klecius Henrique
Da equipe do Correio


Jorge Cardoso
Dois atores locais (Agência TAO) fazem participação no papel de mendigos
Adauto Cruz

O ator Rodrigo Santoro está acostumado a fazer supermercado de madrugada, sobretudo quando as gravações de novelas da TV Globo lhe tomam o dia inteiro. De passagem por Brasília na última semana, encarnando o playboy Carlos Charles, personagem de Estrela Guia, Santoro viveu o inverso: trabalhou a noite inteira vários dias, pouco foi visto pelas fãs e mostrou que vida de artista não é lá tão fácil.
  ‘‘Nossos horários são sempre diferentes. Estou acostumado porque já faço televisão há oito anos’’, disse Santoro, às 23h40, da noite de quarta-feira. Santoro havia gravado cena de um pega na Esplanada dos Ministérios, finalizada com cavalo-de-pau em pleno Eixo Monumental. Ele estava a bordo de camioneta importada, seguida por um Pálio e um ônibus. Por volta da meia-noite, Santoro foi liberado por Carlos Araújo, um dos diretores da novela cuja estréia está prevista para 6 de março e terá locações no interior de Goiás e Rio de Janeiro.
  Não foi à toa que a atitude de Carlos — o da novela — chamou a atenção de policiais civis — estes, de verdade —, que invadiram o set e tentaram abordar o motorista que rodopiava louco pelo Eixo Monumental. Eles só pararam quando souberam que se tratava de filmagem. ‘‘É filme’’, gritou, desesperada, uma produtora. Sem graça, sob risos de militares (que fecharam o trânsito para as cenas) e figurantes, os agentes da Delegacia da Criança e Adolescente saíram de fininho.
  Na ficção, depois do pega, Carlos Charles acaba na cadeia, lugar alérgico a ricos — pelo menos no Brasil. Tanto que o rapaz é liberado após conversa da mãe (Lilia Cabral) com o delegado (Murilo Grossi), em cena gravada na 15ªCompanhia de Polícia Militar Independente (CPMind), no Lago Sul, na tarde de quarta-feira.
  No mesmo dia, Santoro e os atores brasilienses Guilherme Veloso, João Marcelo di Martino e Geraldo Prado — ou melhor, seus personagens — estiveram num posto da 205 Sul, onde se ‘‘abasteceram de cachaça’’ antes de mergulhar na corrida de carros no Eixo Monumental e na agressão a mendigos, alusão direta ao caso do índio Galdino Jesus dos Santos, queimado por filhinhos de papai, em 1997, na EQS 703/704.
  Ainda grato pelo prêmio Candango de melhor ator no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do ano passado, Santoro não vê ligação entre Carlos Charles e os jovens brasilienses. ‘‘Carlos é o típico playboy. Não é de Brasília, nem do Brasil, é o cara irresponsável, inconseqüente, que gasta dinheiro fazendo besteira, não está aí com nada. É o retrato do playboy, e só’’, avalia Santoro.
  Dentro do cronograma de gravações da semana, as câmeras da TV Globo focalizariam ainda dois atores de Brasília: o veterano Andrade Jr. e o empresário Antônio Carlos, intérpretes dos mendigos. ‘‘Não sei o que vou fazer. Mendigo não sabe de nada’’, brincou Antonio Carlos, sob aprovação de Andrade Jr., que ainda desconhecia a tomada que faria na quinta-feira: as panorâmicas anteriores à cena em que os mendigos viraram alvo de paintball de Carlos Charles e galera.
  No início, o roteiro previa que um mendigo fosse queimado acidentalmente pelos rebeldes sem causa. A diretora Denise Saraceni acabou mudando a cena. ‘‘Ficaria pesado demais para uma novela das seis’’, explica Santoro. Não só. O take poderia cair nas garras do Departamento de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça ou do vigilante Siro Darlan, juiz da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.
  Hoje, a equipe da Globo estará gravando em Anapólis. Na próxima semana, a diretora Denise Saraceni e equipe, acompanhada dos protagonistas da novela, Sandy e Guilherme Fontes, estarão em Pirenópolis. A cidade histórica se transformará em Goianópolis, sede do Arco da Aliança, comunidade alternativa que dará fôlego à trama escrita por Ana Maria Moreztson.


Tietagem no Beirute
Da Redação

Terça-feira, quando Rodrigo Santoro deu o ar da graça em um dos bares mais tradicionais da cidade, o Beirute, na 109 Sul, aconteceu o que era de se esperar: muita tietagem em torno do ator. Chegou às 19h, quase desapercebido. As fãs atrasadinhas (e uns poucos rapazes atrasadinhos também) choramingavam. ‘‘Ele já subiu? Já passou? Quem viu?’’
  Ninguém, a não ser as crianças, as mais persistentes. Dayanne Sá do Nascimento, de 12 anos, acompanhada de quatro amigos da mesma faixa etária, nem se intimidou com a chuva. É verdade que os meninos se decepcionaram um pouco quando souberam quem era o ator da gravação. ‘‘Falaram que Xuxa ia estar aqui’’, reclamava Lucas Spíndola de Carvalho, 11 anos. Mesmo assim, as crianças subiram nos brinquedos do parquinho em frente ao bar para ter melhor visão. Molhados — mas felizes da vida — gritavam pelo ídolo olhando para o segundo andar do bar, onde instalaram o camarim provisório.
  Adolescentes (outras nem tão adolescentes assim) que se amontoavam sob a marquise do bar para tentar se proteger da chuva. A jornaleira Renata Figueiredo, 22 anos, saiu correndo do trabalho na 104 Sul e pegou um ônibus até a 109, onde encontrou as primas Maria Júlia e Ana Karina Sidrin, 16 e 18 anos, que estavam de plantão. ‘‘Ele é um gato, mas bem que a Sandy podia ter vindo também’’, contestava Maria Júlia, ressentido-se da ausência da nova estrela global.
  Fãs incondicionais mesmo eram as estudantes Fernanda Languer, 16 anos, e Lidiane Neiva Martins, 17. O namorado de Lidiane, o ator Reinaldo Azevedo, foi figurante da cena e carregou as duas a tiracolo para assistir à sua performance — e, bem, à de Santoro também. E Reinaldo não tem ciúme? ‘‘Ele nem se importa mais’’, aliviava-se Lidiane, que já fez o companheiro se acostumar com sua paixão platônica pelo concorrente global. Enquanto isso, a amiga Fernanda não parava quieta, correndo os olhinhos ansiosos pela multidão para ver se Rodrigo aparecia. ‘‘Ah, se ele passa aqui... Seguro, abraço, levo para mim’’, sonhava. ‘‘Pode botar aí muita coisa da gente, porque nós somos fãs mesmo.’’
  Lá em cima, o ator se preparava para uma noite que terminaria só às 4h da madrugada, quando encerraram as gravações. Fugindo do assédio, Rodrigo se impressionava. ‘‘O público de Brasília é muito carinhoso’’, declarava-se. Mas não esqueceu as vaias que tomou no dia em que seu filme foi exibido no Festival. Apenas preferiu acreditar em versão mais branda da história. ‘‘O público na verdade não me vaiou. Os homens é que vaiaram a reação que as meninas tiveram em relação a mim. Estou cansado de ver isso.’’


Em busca de talentos

  A atriz brasiliense Luciana Martuchelli é responsável pela seleção de elenco de Estrela Guia em Brasília e Pirenópolis. Aos 30 anos, Luciana, que é filha do ator Gê Martu, já fez o mesmo trabalho para a Globo nas novelas Araponga e O Rei do Gado e nas séries A Justiceira e Os Maias.
  O trabalho rendeu a Luciana o posto de coordenadora do projeto Afiliadas de Teledramaturgia, parceria da Tao Filmes (empresa de Luciana e de Marcelo Meireles) com o diretor global Reynaldo Boury (responsável por novelas como Irmãos Coragem e Tieta). O programa tenta descobrir novos talentos em direção e interpretação a partir de oficinas ministradas por Boury ou outros profissionais da televisão.
  ‘‘É um projeto de descentralização da dramaturgia do eixo Rio-São Paulo. De certa forma, chegou-se à conclusão no Rio de que o mercado de lá está saturado. Os talentos da cidade já estão na Globo. Por isso, têm procurado atores fora do Rio. Tem muita gente boa no país que não tem reconhecimento onde vive’’, avalia Luciana.
  Em março, o projeto Afiliadas da Teledramaturgia volta à cena com cursos de interpretação e roteiro. Os atores indicados por Luciana para Estrela Guia saíram da lista de cerca de 900 alunos que passaram pelos cursos da sua produtora. Luciana ainda não achou uma dublê para cenas de cavalo da atriz Lilia Cabral e alguns atores que serão moradores da comunidade alternativa da novela. Interessados devem ligar para 347-2787. (K.H.)


Diário de Filmagem em Brasília

Segunda
Tarde — Na Academia de Tênis, Carlos Charles (Rodrigo Santoro) conversa com a mãe (Lilia Cabral). Ela dá lição de moral no filho e tenta convencê-lo a apoiá-la na venda de umas terras no interior goiano.

Terça
Noite — No Beirute, Carlos Charles se mete numa briga ao lado da namorada. O Beirute não fechou as portas, embora metade do bar tenha sido reservado à novela. Fortes chuvas estenderam o trabalho da equipe da TV Globo das 17h até as 4h da madrugada.

Quarta
Tarde — Na 15ªCPMind, no Lago Sul, a mãe de Carlos Charles implora para que o delegado (Murilo Grossi) solte o filho, preso por ter agredido mendigos na rua. O delegado faz que não a escuta, mas acaba soltado o playboy.

Noite — No Eixo Monumental (ao lado do Teatro Nacional Claudio Santoro), Carlos Charles faz pega com amigos. Envolvendo um ônibus, um Palio e camioneta importada, a cena foi interrompida por viatura da Polícia Civil que confundiu a ficção com realidade. Em seguida foram feitas imagens dos mendigos ao relento.

Quinta
Noite — Carlos Charles e amigos de farra usam dois mendigos como alvo de paintball. A brincadeira atinge o olho de um dos mendigos e coloca Carlos Charles por trás das grades.